Arqueologia | Litoral de Odemira

Caracterização

Desde os tempos mais remotos da presença humana na Europa, o período Arcaico do Paleolítico Inferior (aproximadamente 1, 8 milhões de anos), até às épocas dos metais, e, em certos casos, até aos dias de hoje, a pedra foi uma das matérias-primas mais utilizada na produção de utensílios.

Além de ser muito abundante, detém propriedades mecânicas que lhe permitem uma ampla utilização. Pode ser usada em bruto, para martelar, triturar, partir ou esmagar, ou lascada, para formar gumes cortantes e/ou pontas aguçadas para cortar, serrar, raspar e perfurar, conseguindo-se assim equipamentos destinados à caça, pesca, apanha de marisco, abate de árvores e trabalho sobre madeira, escavação de solos e, ainda, nas mais diversas atividades domésticas.

É certo que também se utilizaram outros materiais disponíveis na natureza, como o couro, madeira, chifre, osso, etc. mas, salvo raras exceções e como resultado de uma preservação diferencial ao longo dos tempos, apenas os instrumentos de pedra chegaram até nós mantendo a sua aparência original. Logo, a importância destes instrumentos reside no facto de, muitas vezes, constituírem a maior parte ou mesmo a única fonte de informação que dispomos para estudar as comunidades que, num passado longínquo, habitaram o nosso território e, logicamente, exploraram os recursos naturais. A título de exemplo, as conchas só começam a surgir em estações arqueológicas do litoral de Odemira há menos de doze mil anos (Pedra do Patacho, Vila Nova de Milfontes). Daí até aos mais antigos indícios da presença humana em Odemira, são centenas de milhares de anos onde os artefactos em pedra constituem os únicos testemunhos.

Contudo, nem todos os tipos de pedra foram usados aleatoriamente. Contrariamente ao observado em muitas regiões da Europa, onde o sílex é recorrente e ocupa praticamente a totalidade dos conjuntos de artefactos líticos, este tipo de pedra é ausente nas formações geológicas do sudoeste alentejano. Assim, quando não quiseram, ou conseguiram, adquirir sílex do exterior, as populações que viveram neste território necessitaram de se adaptar e especializar no talhe das pedras disponíveis localmente: o grauvaque, o quartzito, o quartzo e o cristal de rocha. A pequena percentagem de sílex – em relação ao grauvaque, que detetamos nas estações arqueológicas de Odemira deverá ser oriunda de paragens mais distantes, como Sagres.

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No concelho de Odemira existem mais de duas dezenas de estações arqueológicas onde se observam, à superfície, grandes concentrações de materiais arqueológicos constituídos por utensílios descartados ou abandonados, lascas resultantes do talhe de utensílios, blocos de pedra usados para a extração de lascas, etc. Estes conjuntos de materiais, que à primeira vista parecem apenas aglomerados de pedras partidas, são o resultado de um uso intenso e quase exclusivo de seixos rolados pelo mar para a produção de instrumentos.

Estes sítios situam-se exclusivamente junto da costa, formando uma estreitíssima faixa perfeitamente encaixada entre os limites norte e sul do concelho. Nestas estações de ar livre, as denominadas oficinas de talhe e acampamentos mirenses, a concentração de artefactos pode atingir as dezenas, centenas, milhares ou mesmo suplantar as três dezenas de milhares. Em resultado das investigações que foram realizadas, temos conhecimento que a sua maioria resultou do assentamento, há cerca de 10.000 anos, altura em terminou a última época glaciar e a linha de costa se aproximou dos limites atuais, de comunidades que se deslocavam ciclicamente ao litoral com o objetivo de explorar os recursos que o mar propiciava. A este conjunto de sítios foi atribuída a denominação de cultura Mirense, pois foram primeiramente identificados junto da desembocadura do rio Mira e, entre os recursos disponíveis, encontrava-se a pedra.

Em muitas enseadas da nossa costa são visíveis grandes acumulações de calhaus rolados. Os calhaus rolados, ou rebolos como são conhecidos localmente, são blocos de pedra que se desagregaram e precipitaram das falésias, sendo posteriormente erodidos pelo entrechoque e fricção provocado pela força contínua das ondas do mar até adquirirem as características formas arredondadas. Entre os rebolos – de acordo com a dureza, forma, dimensão, etc., selecionaram-se os mais adequados e transportaram-se para o topo da falésia para serem trabalhados e transformados em utensílios. Assim, fizeram-se percutores e bigornas para partir sementes duras e para talhar outros seixos, mós e moventes para moer cereais selvagens, picos para escavar, raspadores para tratar peles de animais e equipamentos para trabalhar outros materiais. Mas não só. Produziram-se ainda equipamentos destinados à exploração dos recursos marinhos, designadamente pandulhos e/ou pesos de rede para a pesca e, possivelmente, utensílios para a apanha de lapas e percebes. Da gama de artefactos feitos a partir de seixos durante a Pré-história que se seguiu ao fim da última época glaciar, o denominado machado mirense é o mais representativo da arqueologia desenvolvida em Odemira e aquele que mais questões levanta pois, apesar de terem passado mais de 70 anos desde a sua identificação neste concelho, persistem dúvidas em relação à sua origem, cronologia, função e forma de manuseamento.

Curiosamente, alguns destes instrumentos foram recentemente reinventados por comunidades piscatórias do concelho de Odemira. Ainda hoje em dia, muitos dos pesos usados para servir de lastro a algumas artes de pesca, nomeadamente nas nassas e redes, são obtidos a partir do talhe expedito de calhaus rolados que se encontram disponíveis nas enseadas dos nossos portos de abrigo.