Antropologia | Litoral de Odemira

Construção Naval

A árvore, a experiência e o saber – dois artesãos de barcos na costa de Odemira
Os portos da costa de Odemira – Porto do Canal, Cais de Vila Nova de Milfontes, Lapa de Pombas, Entrada da Barca e Azenha do Mar – são frequentados por um conjunto de embarcações de tamanhos e características variadas (ver glossários).

As rampas de Lapa de Pombas, Entrada da Barca e Azenha do Mar são usadas só por barcos de boca aberta, que têm entre cinco/seis metros e pouco de comprimento de fora a fora, por norma. Utilizam os cais e as amarrações do Porto do Canal, além de embarcações com esta tipologia, barcos pequenos com cabine de motor (que podem dar abrigo a um tripulante, no máximo dois), barcos de recreio (os maiores possuem cerca de quinze metros de comprimento e são de fibra de vidro) e barcos de convés corrido para a pesca comercial (Neco, por exemplo).

Um barco de madeira nunca envelhece: renova-se com a substituição das peças que não estão em condições. Esta metáfora de José Raimundo, pescador do Porto do Canal de Vila Nova de Milfontes, tem a outra face no cuidado que os carpinteiros e construtores navais põem na escolha dos materiais e nos seus modos-de-fazer.

José Delgadinho, também desta vila, trabalhou sobretudo com pinho manso para fazer as peças curvas do cavername – braços, cavernas, quilha e roda de proa – e usava pinho bravo para as peças direitas, como as do costado, que é também uma madeira com pouco nó. Raramente recorreu ao sobro e ao freixo, pois embora sejam madeiras duras, era difícil arranjar peças inteiriças para as quilhas, e não gostava de trabalhar com emendadas.

Com a mulher, que o ajudava a serrar e carregar os troncos mais pesados, José Delgadinho fez alguns dos primeiros trabalhos numa divisão que era oficina e cozinha, que foi crescendo à medida que aumentaram o número de encomendas e as dimensões dos barcos. Um destes, que tinha seis metros de comprimento, só saiu depois de cortado um bocado do portão da casa, cujo interior media seis metros e meio por quatro metros.

Para as embarcações maiores, José Delgadinho indicava aos desenhadores o feitio e as medidas – comprimento, largura de boca e pontal –, que as traçavam segundo o seu pensamento (cá à minha vontade). Depois, enquanto as construía, as vistorias passavam pela oficina, primeiro, depois de cavernar e, no final, aquando do acabamento.

José António, pescador e construtor naval da Azenha do Mar, tem um percurso distinto. Começou por ganhar o afeto de andar ao mar pela mão do sogro, que era pescador. Adquiriu um barco no Norte, de boca aberta, que reparou ajeitando-se a trabalhar com as madeiras, forma de falar que normalmente significa uma aprendizagem autodidata e feita de vontade própria. Seguiram-se outras reparações na comunidade e, por fim, aventurou-se, diz, a construir um barco novo para si a partir do antigo: tipo lancha voadora, tipo chata, que satisfazia as necessidades destas águas, com cavername em madeira de pinho e costado em contraplacado marítimo, com cinco metros e meio de comprimento e um metro e noventa de boca.

“Um barco de madeira nunca envelhece: renova-se com a substituição das peças que não estão em condições.”

Inovação, diversidade e unidade nos modos de trabalhar

Construir em madeira e em fibra de vidro implica duas técnicas diferentes:

Na primeira, a imagem do nascimento de um barco é a de um processo que se faz passo a passo: lança-se a quilha, a roda de proa, o cadaste, o couce, o painel, as cavernas, os braços, coloca-se o tabuado, a cinta, o alcatrate, as panas, os dormentes. Só algumas destas peças são direitas. É preciso, diz José António, medi-las bem com régua e compasso, encaixá-las o melhor possível no lugar.

A imagem dos trabalhos em fibra de vidro é a de um vazio que se preenche: faz-se um molde em madeira e metem-se materiais lá para dentro, resinas, manta, poda-se os produtos. Para este construtor, também se comportam de modo diferente quando navegam: a madeira agarra-se ao mar e a fibra desliza por cima da água.

Havia embarcações que nas juntas do costado tinham de ser bem calafetadas para não deixarem entrar água. António Manuel Raimundo, pescador de Vila Nova de Milfontes, conta que as embarcações de José Delgadinho eram tão boas que nem uma pinga de água faziam, com as tábuas do costado muito juntinhas e sem necessidade de estopa.

Era um procedimento que começava por um tronco de madeira, que era esculpido para se tornar um semi-casco (exatamente metade de um barco). Com base neste, José Delgadinho discutia com o armador as formas e alterava-as ao gosto deste. Desta miniatura tirava as medidas da quilha, cavernas e braços (balizas), proa e popa, passava-as para uma tábua de contraplacado e, em seguida, para uma grade, que dava a forma e as dimensões das peças à escala real. Colocava a grade sobre a madeira e cortava as peças com a medida e forma devidas. Por sugestão de uma das pessoas que lhe encomendou um barco e o admirava, este construtor começou a pintar, de um e outro lado da roda de proa, um distintivo nos barcos de que era autor.

José António, da Azenha do Mar, distingue os barcos que constrói só pelo formato, pelo feitio e olha-os como o resultado de avanços conseguidos através da observação e do diálogo. Na primeira construção tirou mais ou menos uma ideia de um barco seu e, com base na experiência que ganhara dos mares desta costa, aumentou a largura de boca para lhe dar mais estabilidade e deu-lhe um bocadinho mais de altura. Introduziu, com o tempo, outros aperfeiçoamentos com o objetivo de melhor adaptar as embarcações ao mar, à meteorologia local e às pescarias: uma proa mais em bico ou mais em leque e aberta nas amuras para o barco navegar com mais segurança; para ser mais forte de proa, ser mais galeado; com mais dez centímetros de altura, mais tanto de largura, mais proa levantada, com proa mais aberta, com mais chão de caverna…

José António diz que, depois de fazer meia dúzia de embarcações, sentiu que as possibilidades de inovação tinham alcançado um limite, que não valia a pena alterar mais. Todo o construtor parece ter um modo de exprimir estes sentimentos que, em geral, associa a uma certa maturidade e autonomia que atinge nos trabalhos. José Delgadinho di-lo numa forma mais contemplativa: Todos gostavam dos meus barcos. Tanto gostavam que eles vinham de longe. Gostavam dos barcos e da construção.