Geologia | Litoral de Odemira

Estratigrafia e Tectónica

 

Cartografia geológica da região litoral de Odemira

Figura 1 – Cartografia geológica da região litoral de Odemira, escala 1:200.000, Serviços Geológicos de Portugal, 1984. Símbolos: CVS – Complexo Vulcano-Sedimentar da Faixa Piritosa; HBr – Formação da Brejeira; HMi – Formação de Mira; PQ – Cobertura sedimentar da Plataforma Litoral Plio-Quaternária; d – Eolianitos e Dunas recentes, indiferenciados.

Estratigrafia
Ao longo do litoral, entre Odeceixe e Porto Covo, reconhecem-se as seguintes unidades estratigráficas, em sentido ascendente e por ordem de idades (Fig. 1, à direita).
 

Substrato Paleozóico

Complexo Vulcano-Sedimentar da Faixa Piritosa
Trata-se de um pequeno afloramento na arriba da praia das Furnas, coberto pela vegetação, onde ocorrem rochas vulcânicas, do tipo tufito, muito afectadas por falhas.

Formação de Mira (330-323 Ma BP)

Figura 2 - A Formação de Mira, afectada por filões de quartzo e óxidos de manganês. Localização: arriba norte da Foz do rio Mira.

Figura 2 – A Formação de Mira, afectada por filões de quartzo e óxidos de manganês. Localização: arriba norte da Foz do rio Mira.

Constituída por xistos de cor escura nos quais estão intercaladas bancadas finamente estratificadas de siltitos (arenitos finos) e grauvaques (Fig. 2). Na carta geológica esta formação está representada nas arribas da costa a norte da praia de Almograve. Está também assinalada nas arribas setentrional e meridional da foz do rio Mira, em Milfontes, com características que não são comuns, designadamente a presença de óxidos de ferro e de manganês, associados a falhas e filões. A formação ocupa vasta área no Baixo Alentejo e está bem representada ao longo do vale do rio Mira, e daí o seu nome. A sua idade é fornecida por fósseis de cefalópodes primitivos (ordem das goniatites).

Formação da Brejeira (323-307 Ma BP)

Figura 3 - A Formação da Brejeira, com bancadas de quartzitos e grauvaques, alternando com níveis com xistos dominantes. Localização 200 m a norte da Lapa das Pombas.

Figura 3 – A Formação da Brejeira, com bancadas de quartzitos e grauvaques, alternando com níveis com xistos dominantes. Localização 200 m a norte da Lapa das Pombas.

Esta formação está muito bem exposta ao longo das arribas da costa, entre a praia de Almograve e Odeceixe, entre Vila Nova de Milfontes (Pedra do Panacho) e a praia do Malhão, no vale do rio Mira e nos vales de alguns barrancos. É constituída por bancadas de grauvaques e de quartzitos (estes claramente dominantes nas arribas da costa a NW de Milfontes), intercaladas em xistos argilosos escuros e siltitos finamente estratificados (Fig. 3). As bancadas destas rochas exibem estruturas sedimentares (granoseleção, laminações paralelas e cruzadas) típicas de deposição em ambientes marinhos profundos. Esta unidade estratigráfica está representada no Baixo Alentejo e no Algarve, sendo as suas rochas dominantes nas serras de Caldeirão, Brejeira e Espinhaço de Cão, particularmente bem expostas na serra da Brejeira (a norte de Monchique), de onde deriva o seu nome. A idade destas rochas foi determinada com base em fósseis de goniatites.
 

Cobertura Sedimentar do Cenozóico

As unidades estratigráficas do Cenozóico estão bem representadas entre a Lapa das Pombas e a praia do Malhão, onde a Plataforma está mais abatida e mais preservada da erosão.
 

Praias Levantadas

Nível dos 10 – 15 m

Figura 4 - Nível de praia levantada, com areias de grãos de quartzo, na parte inferior, e calhaus de quartzito de grauvaque na parte superior. A cor amarela é resultante de areias eólicas recentes, em progressão para o continente. Localização: arriba 100 m a NW de Lapa das Pombas.

Figura 4 – Nível de praia levantada, com areias de grãos de quartzo, na parte inferior, e calhaus de quartzito de grauvaque na parte superior. A cor amarela é resultante de areias eólicas recentes, em progressão para o continente. Localização: arriba 100 m a NW de Lapa das Pombas.

Os sedimentos destas praias consistem em conglomerados constituídos por calhaus de grauvaque e de quartzito, muito rolados, com dimensões variáveis que chegam a atingir algumas dezenas de centímetros. Misturadas com estes calhaus há areias grosseiras e finas, predominantemente constituídas por grãos de quartzo (Fig. 4). Qualquer destas litologias pode ser dominante. O conjunto dos calhaus e areias está mal consolidado, podendo localmente estar impregnado de óxidos de ferro e de manganês. A espessura é variável, de alguns decímetros a poucos metros. Esta unidade assenta directamente, em discordância, sobre o soco paleozóico e tem representação descontínua ao longo das arribas, devido a uma erosão posterior à sua deposição. Pode aflorar a altitudes variáveis resultantes de variações eustáticas do nível do mar ou abatimentos ou elevações tectónicas da Plataforma.

Nível dos 1 – 2 m

Este nível está representado na foz do rio Mira, na praia do Farol. Os calhaus dominantes são de grauvaque e de quartzito, muito bem rolados, com espessura variável de alguns decímetros a poucos metros (Fig. 5). Há também calhaus de xisto e areias geralmente grosseiras. Os calhaus estão na base ou dispersos na parte inferior de bancadas de arenitos, que pertencem ao Eolianito da Praia do Farol.

Figura 5 - Nível das praias levantados de 1–2 m. Localização: foz do rio Mira, praia do Farol.

Figura 5 – Nível das praias levantados de 1–2 m. Localização: foz do rio Mira, praia do Farol.

 

Eolianito de Lapa das Pombas (Plistocénico superior: 120 Ka BP)

Este eolianito está assente sobre o nível 10-15 m das praias levantadas (Fig. 6). São arenitos de granularidade fina a média, impregnados de hidróxidos de ferro e de manganês, com espessura máxima de cerca de 10 m, que pode ficar reduzida a alguns decímetros por efeito da erosão posterior (Fig. 7). Estes arenitos estão fortemente afetados por ações de diagénese e de meteorização, daqui resultando figuras de dissolução contorcidas e mesmo dobradas que resultam da concentração de ferro e de manganês em níveis preferenciais. Estas acções destruíram em grande parte a estratificação das bancadas, mas nalguns locais esta ainda se nota. A impregnação por hidróxidos de ferro é posterior à sedimentação. Uma vez que a diagénese e a meteorização apagaram as estruturas sedimentares, é difícil estabelecer uma origem para estes arenitos. Sugere-se, tentativamente, que a parte inferior poderá ter sido depositada em meio marinho e que só a parte superior será de origem eólica (Fig. 8). A idade também é desconhecida, possivelmente correlacionável com a idade do Eolianito do Malhão (ver adiante).

Figura 6 - Vista da costa, mostrando a unidade do Eolianito de Lapa das Pombas (a castanho) sobreposta ao nível da Unidade das Praias Levantadas (10-15 m), ambos em discordância sobre o substracto paleozóico. Símbolos: a - substrato paleozóico; b - nível das praias levantadas; c - Eolianito da Lapa das Pombas; d - escorregamento gravitacional. Localização: 200 m a norte da Lapa das Pombas.

Figura 6 – Vista da costa, mostrando a unidade do Eolianito de Lapa das Pombas (a castanho) sobreposta ao nível da Unidade das Praias Levantadas (10-15 m), ambos em discordância sobre o substracto paleozóico. Símbolos: a – substrato paleozóico; b – nível das praias levantadas; c – Eolianito da Lapa das Pombas; d – escorregamento gravitacional. Localização: 200 m a norte da Lapa das Pombas.

Figura 7 - Aspeto dos arenitos ferruginosos do Eolianito de Lapa das Pombas. Notar o nível de concentração de ferro, mais escuro, na parte superior da fotografia, bem como os calhaus e blocos do nível das praias levantadas subjacente. Localização: 100 m a norte da Lapa das Pombas.

Figura 7 – Aspeto dos arenitos ferruginosos do Eolianito de Lapa das Pombas. Notar o nível de concentração de ferro, mais escuro, na parte superior da fotografia, bem como os calhaus e blocos do nível das praias levantadas subjacente. Localização: 100 m a norte da Lapa das Pombas.

Figura 8 - O Eolianito de Lapa das Pombas, na arriba a sul do porto. Notar a estratificação em bancadas paralelas, sugerindo sedimentação em meio marinho. No topo da fotografia, do lado esquerdo, o eolianito impregnado por hidróxidos de ferro de cor castanha. Localização: Porto de pesca Lapa das Pombas.

Figura 8 – O Eolianito de Lapa das Pombas, na arriba a sul do porto. Notar a estratificação em bancadas paralelas, sugerindo sedimentação em meio marinho. No topo da fotografia, do lado esquerdo, o eolianito impregnado por hidróxidos de ferro de cor castanha. Localização: Porto de pesca Lapa das Pombas.

 

Eolianito do Malhão
Figura 9 - O Eolianito do Malhão. Notar: a - as laminações cruzadas de larga escala típicas da sedimentação das dunas eólicas; b - traço de duas falhas verticais que afectam o eolianito.

Figura 9 – O Eolianito do Malhão. Notar: a – as laminações cruzadas de larga escala típicas da sedimentação das dunas eólicas; b – traço de duas falhas verticais que afectam o eolianito.

Está representado por dunas consolidadas, constituídas por arenitos de granularidade fina, de cor clara, com as estruturas sedimentares típicas de dunas eólicas ainda visíveis. Os arenitos estão enriquecidos em carbonato de cálcio, o qual é atribuído à dissolução de conchas calcárias que terão existido dispersas nas dunas. O afloramento mais conhecido localiza-se no Malhão, a sul da praia com mesmo nome. Aqui são visíveis as estruturas sedimentares dunares (Fig. 9) e também rizoconcreções variadas (Fig. 10) que estão relacionadas com a existência de vegetação arbustiva desaparecida.

Mostram também estruturas de dissolução aquosa (lapiás), resultantes da dissolução do carbonato de cálcio. Por sua vez, o carbonato de cálcio preenche fracturas com orientações variadas. Estes arenitos, actualmente situados a cotas de 40-50 m, estão inclinados para o mar e cortados pela arriba, o que sugere que poderão existir ainda, preservados sob as águas do oceano, abaixo das areias das praias atuais.

As dunas consolidadas que afloram no topo das arribas da região do Porto das Barcas, também suprajacentes ao nível de 10-15 m das Praias Levantadas, são consideradas um prolongamento do Eolianito do Malhão.
 

Figura 10 - Rizoconcreções no Eolianito do Malhão. A vegetação actual tem altura máxima de 10 cm.

Figura 10 – Rizoconcreções no Eolianito do Malhão. A vegetação actual tem altura máxima de 10 cm.

§ Rizoconcreções – cementação da areia ao redor das raízes de plantas dunares, apresentando um aspeto de tubos cilíndricos.