Geologia | Litoral de Odemira

Geomorfologia do Território

Figura 1 - O território da região litoral de Odemira

Figura 1 – O território da região litoral de Odemira

A serra de Cercal-São Luís é maioritariamente ocupada pela sequência rochosa do Complexo Vulcano-Sedimentar da Faixa Piritosa, datada do Devónico Superior (370 -360 milhões de anos), onde predominam xistos e rochas vulcânicas de cor clara, muito siliciosas (riólitos), estas últimas muito resistentes à erosão, sendo responsáveis pela actual morfologia da serra. A altitude máxima é atingida no morro Santo Isidoro (373 m), cerca de 6 km a NW de São Luís. O flanco ocidental da serra, actualmente muito retalhado por erosão fluvial, e em contacto com a Plataforma, corresponde a uma antiga escarpa de erosão. Este tipo de morfologia é designado por relevo de dureza.

A Plataforma Litoral é a região aplanada compreendida entre o vale da ribeira de Seixe, a sul, e a região de Malhão, a norte. A altitude média varia de 80 m a sul, a 65 m a norte, e de 130 m a oriente a 20 m a ocidente. Estes desnivelamentos têm sido interpretados como resultado da actividade de falhas tectónicas de rejeito vertical (Ana Ramos Pereira, 2004). Alguns pontos mais elevados, que não excedem os 140 m, representam restos de erosão. A Plataforma está ocupada por sedimentos predominantemente arenosos e siltosos, muito remobilizados devido à actividade agrícola actual. A génese desta plataforma e a origem dos sedimentos que a ocupam têm uma história complexa (ver Paleogeografia), que se terá iniciado durante o período Pliocénico (5.3 – 2.5 Ma BP*).

As praias do litoral marinho são de dois tipos, arenosas e cascalhentas. Ambas ocupam reentrâncias na costa, herdadas da erosão do substrato rochoso sobre o qual assentam. Este substrato, maioritariamente constituído por xistos, grauvaques e quartzitos das Formações de Mira e Brejeira, foi fortemente deformado por movimentos tectónicos associados à génese da Cadeia Varisca, que ocorreu no final da Era Paleozóica. Os esporões que actualmente controlam as praias, com orientação predominante para NW, estão associados à erosão marinha sobre dobramentos tectónicos com a mesma orientação. As praias cascalhentas resultam da erosão marinha actual das arribas; as praias arenosas têm a sua origem em sedimentos provenientes do rio Mira e, também, do transporte sedimentar associado à deriva litoral com correntes predominantes de norte para sul.

O vale do Rio Mira e muitos dos seus afluentes (ribeira do Gomes e vários barrancos também designados por corgos) estão encaixados na Plataforma Litoral e o seu leito está instalado nas rochas do substrato paleozóico, desenvolvendo-se nas suas margens terraços argilo-siltosos correspondentes a planícies de inundação geradas em regime de cheia. O rio corre no sentido NNW, com alguns meandros, mas por alturas de Vale do Homem inflecte para WSW. Este troço está alinhado com parte do corrego da Mó, admitindo-se que esta mudança de orientação possa estar associada a uma falha oculta, com orientação ENE-WSW. Na foz do rio, margem sul, há dunas actuais provavelmente resultantes da erosão da praia arenosa, que no passado deveria ser mais larga. Estas dunas estão afectadas por uma escarpa de erosão cuja origem poderá ser devida à conjugação de níveis anormalmente elevados das águas do rio, devido a cheias, com marés elevadas. A praia do lado norte da foz está a ser actualmente erodida, eventualmente devido ao desenvolvimento de barras arenosas longitudinais que obrigam as águas a desviarem-se para a margem. Fora do vale do Rio Mira, mas também instalados na Plataforma, ocorrem alguns barrancos (Zambujeira, Carvalhal) e pequenas linhas de água, designadas por brejos, todos a correrem para o oceano. Os barrancos têm os leitos sobre o soco paleozóico e os brejos estão instalados em sedimentos mais recentes, dunares ou fluviais. Localmente podem desenvolver-se pequenas lagoas, em geral temporárias, nas quais se acumula argila escura, carbonosa.

*BP – Before Present (antes do tempo presente)