História | Litoral de Odemira

Moagem Maremotriz

O moinho de maré uma realidade atlântica, de origem europeia, datada da Idade Média. Os moinhos de maré utilizam o efeito das marés, mais especificamente, a diferença entre o praia-mar e o baixa-mar, para colocar em funcionamento o aparelho de moagem. Localizam-se, por isso, junto da costa, geralmente em estuários com margens alagadiças e esteiros. No rio Mira, a sua área de difusão estendeu-se até à vila de Odemira, distante mais de vinte quilómetros da foz, graças à extensão do efeito das marés e às margens de morfologia apropriada. A relação íntima com os ritmos marítimos é percebida pelo pároco de Milfontes, em 1758, que diz “nasce o dito rio do mar largo, onde tem a barra”1. Esta perspectiva é confirmada por pesquisas recentes que mostram a penetração de massa de água de características marinhas até 7.5 Km para montante, em preia-mar de águas vivas, a partir dos quais descem gradualmente os níveis de salinidade e o impacto das marés. No entanto, todo este troço sofre marés de amplitude significativa que, no ponto mais distante de Odemira, atinge os 3 metros. Neste espaço foram detectados 15 engenhos deste tipo, dos quais a maioria se encontra desaparecida.

A roda horizontal – rodízio – é a roda motriz aplicada na generalidade dos moinhos portugueses. Uma excepção à utilização da roda horizontal surge exactamente no rio Mira, no moinho do Loural, construído em finais do século XIX, é o mais recente dos engenhos deste género no rio Mira, tendo deixado de moer em finais dos anos 50, mas continuo a descascar arroz nos anos 60 e 70.

Entre a foz do rio Mira e a vila de Odemira foram detectados 15 engenhos deste tipo, dos quais a maioria se encontra desaparecida. O mais antigo é o Moinho de D. Soeiro, construído na margem direita do rio Mira, no local ainda hije denominado D. Soeiro. Este engenho é anterior a 1488, tinha dois aferidos, e terá sido desactivado em finais do século XVIII. Nesta altura existia também o Moinho da Mamoa, de que não se consegue decifrar a localização, colocando-se como hipótese mais provável o facto de ser o moinho d’Além, na margem esquerda do Mira. O moinho da Gama terá sido construído antes de 1565, teria 2 aferidos e localizava-se no esteiro da Gama, do nome da propriedade em que se inclui, a sua designação parece associar-se aos Gama, da alcaidaria de Sines, nomeadamente Estêvão da Gama, pai de Vasco da Gama, senhor de Sines e de Colos, comendador do Cercal. O moinho d’Além é o primeiro engenho referenciado na margem esquerda, terá sido construído antes de 1651 e foi desactivado em finais do século XVIII, e poderá ter sido o monho da Mamoa que, por vicissitudes várias, acabou por mudar de nome. Em 1770, é mencionado junto à vila de Odemira um “moinho da vila” (também chamado da Longueira), pertença do Condado, que quase um século depois, em 1791, já estava desactivado.

Mapa de Portugal datado de 1560

Na segunda metade do século XVIII, ocorre um surto de construção de moinhos de maré em Odemira, que é acompanhado pelo surgimento da moagem eólica neste conselho. No tombo dos bens do concelho, realizado em 1805, são mencionados os seguintes moinhos de maré: o moinho do Roncão, edificado em finais do século XVIII ou no início do século XIX, na herdade do Roncão, freguesia de Salvador, Odemira, que deixou de funcionar nos anos 40 do século XX; o moinho do Alference, construído na herdade do Vale de Gomes, em 1791, terá sido o maior moinho do Mira, mas poucos anos depois estava demolido e dele não se encontram mais referências; o moinho de Roncão de Baixo, freguesia de S. Luís, de que não se sabe a data de construção; um pequeno moinho na herdade das Dobadouras, freguesia de S. Luís, construído no final do século XVIII; o moinho da Samouqueira, na herdade com o mesmo nome, cuja construção é anterior a 1747. Em 1822, há notícia de um moinho cuja caldeira se situava no porto da Eira, cerca de 200 metros a jusante do porto do Peguinho. Porém, nesta data já não havia vestígios da sua existência e a caldeira estava transformada em várzea cultivada de milho e trigo.

No início do século XIX, aparecem no tombo dos bens do concelho o Moinho da Gama, que já estava completamente arruinado; o moinho do Amieiral, que ficava no esteiro do Amieiral, sitio do Bate-Pé, cuja construção er anterior a 1746, que moia com água salgada e com água doce, graças ao ribeiro que aí desguava; o Moinho do esteiro do Freixial, conhecido desde meados do século XIX, como “moinho da Asneira”

No princípio do século XX, constatamos a existência dos seguintes moinhos, de montante para jusante: O moinho do Roncão, pero da foz da ribeira do Torgal, deixou de laborar há cerca de sessenta anos, cujo edifício do moinho já desapareceu; o moinho das Moitas, cujo edifício, contendo algumas mós, ainda existe, que iniciou a laboração em princípios do século XIX e deixou de funcionar há cerca de sessenta anos; o moinho do Loural, construído em finais do século XIX, construído na margem esquerda do Mira, que deixou de moer em finais dos anos 50, mas continuou a descascar arroz nos anos 60 e 70; do moinho do Amieiral restam as ruínas do edifício, sem câmaras de rodízios nem mós, tendo sido adaptado para abrigo de gado; o moinho da Asneira é anterior a 1746, e deixou de laborar regularmente apenas nos anos sessenta, embora tivesse continuado operativo durante mais dez anos, tendo sido posteriormente desactivado e convertido em empreendimento turístico.