Antropologia | Litoral de Odemira

Modos de Falar

Nas culturas da beira-água sobressaem palavras, expressões e conhecimentos que evidenciam uma linguagem própria associada a lugares, objetos e modos de fazer. Uns são exclusivamente locais ou regionais, outros encontram-se em toda a costa. Termos como laredo, palheirão, vaga, bote, bombordo, estibordo, proa, popa, vante, , retenida, teia, caçada, covo, nassa, andiche, braça, nortada, fundeadouro, amarração são usados no dia a dia dos pescadores do concelho de Odemira. O seu contributo para conhecer o significado destas palavras é precioso, tendo sido criados glossários para consulta, incluindo termos de especificidade técnica.

O contributo dos pescadores para conhecer o significado das palavras usadas no mar é precioso.

Glossários

ARTES DE PESCA

Apanha e Marisqueio – É uma atividade exercida a pé pela costa ou através de mergulho, feita de mãos nuas ou calçadas com panos e luvas, ou com a ajuda de apetrechos improvisados ou transformados: faca, arrilhada, arame, prego, sacho, vareta, bicheiro ou bucheiro, camaroeiro, recipientes para transporte (balde, cesto, caixa, saco de rede), etc.

Os regulamentos proíbem alguns dos instrumentos tradicionalmente usados na apanha e no marisqueio, como: fisga, ancinho, pinça, bicheiro, galheiro, peteira, lança, flecha, arpão lançado, arpão lastrado, projéteis de armas de fogo e de ar comprimido.

Na costa de Odemira faz-se a apanha de percebe, lapa, mexilhão e ouriço nas pedras e laredos. Até cerca de 2006 fez-se também a recolha de algas na área da Azenha do Mar para Sul, atividade que neste momento se encontra suspensa.

Estas atividades estão submetidas a regulamentos da Direção Geral de Recursos Naturais Segurança e Serviços Marítimos e do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina.

Arremesso – Não se pratica na costa de Odemira. É uma atividade individual, mas, em certas circunstâncias, é feita em companha: por exemplo, na caça à baleia, nas caçadas aos grandes mamíferos marítimos que são feitas a partir de embarcações, sendo preciso uma ação coordenada dos tripulantes.

O que distingue o arremesso é o facto do instrumento, do aparelho de captura, ser arrojado ou lançado através do impulso do braço, ou por meio de armas (de fogo, de ar comprimido, canhões).

Duas situações a considerar. Nesta arte, há situações em que o braço, a mão e o instrumento ou arma são absolutamente solidários, mantendo-se estes na mão do pescador; e situações em que são arremessados.

Fazem parte desta classe o arpão, a lança, a fisga, a flecha, etc.

Atordoamento – Esta atividade não se pratica na costa de Odemira. Pode ser um processo de pesca por si, quando usado em áreas pequenas, junto às margens de cursos de água pouco profundos, ou pode ser um procedimento auxiliar quando empregue na pesca oceânica.

Em geral o seu emprego encontra-se agregado ao uso de instrumentos, como sacos de redes, redes de emalhar, de enredar, de cerco, para a recolha de presas depois de paralisadas ou após a reação que lhes é provocada.

Nesta classe entram os explosivos (dinamite, granadas de mão), os sistemas elétricos (choques, disparos luminosos) e os venenos.

A Pesca por Linhas e Anzóis – Esta actividade inclui um conjunto extremamente amplo de artes e procedimentos, constituindo uma pesca por ferimento.

Em Odemira  podemos considerar dois grandes tipos: há a pesca por linha simples e anzol, ou cana, linha simples e anzol; e existe a pesca por linha e muitos anzois (o palangre). Uma exceção, que pode ser encontrada no estuário do Tejo e na laguna de Aveiro, não usada nesta costa, é a pesca com linha e molhe de minhocas (enfiadas numa das pontas da linha de pesca, da boca à extremidade oposta, até formar um molho.

Quer no número e comprimento das linhas, quer no modo de armar e nos materiais que os constituem, bem como nas denominações das artes, no interior deste agrupamento cai um grande número de processos: linha de mão e anzol, cana e linha e anzol (em ambos os casos teremos ainda a pesca à boia, ao sentir e ao fundo), espinhel ou palangre fundeado, espinhel ou palangre derivante, corrico ou corrido, salto e vara (vardasca, vardascão), toneira, taloeira, piteira e zagaia.

São artes e pescarias muito comuns e diversificadas nos portos do Concelho de Odemira.

Instalações – Não se usam na costa de Odemira ou nas águas interiores do concelho. Constituem uma das quatro subcategorias de armadilhas e são artes que, independentemente da dimensão, se baseiam num trabalho de montagem mais ou menos complexo.

Entre este tipo de arte podemos referir as almadravas para a captura do atum, as armações à valenciana e as armações redondas ou portuguesas para a pesca de pelágicos pequenos, como a sardinha e a cavala; as estacadas que se colocam nos cursos de água.

Armadilhas de Abrigo – Constituem um conjunto de aparelhos e procedimentos em que a presa entra, mas não fica obrigatoriamente retida. Pode sair sempre que quiser.

Entre as armadilhas de abrigo temos alcatruzes, potes, púcaros, tubos ou feixes de tubos, saco de malha larga cheio de ‘bodelha’ para as enguias chamado botilhão ou bodilhão.

Na costa do Concelho de Odemira faz-se mais vulgarmente o uso de covos e alcatruzes de plástico.

Armadilhas de Gaiola de estrutura fixa e Armadilhas de gaiola de estrutura desmontável ou flexível – Esta classe abrange uma variedade de aparelhos com formas e tamanhos muito diversos.

A particularidade distintiva das armadilhas de estrutura flexível é poderem ser desmontadas ou, pelo menos, reduzidas as suas dimensões de maneira a tornar fácil o transporte. Para isso basta tirar, na maior parte das vezes, duas ou três canas ou tubos, que lhes dão rigidez. Entre os nomes deste tipo de aparelho encontramos a nassa, o botirão, o galricho.

A particularidade distintiva das armadilhas de estrutura fixa é a sua rigidez, independentemente do tamanho. No passado era assegurada por varinhas, madeira, junco, material de que era feita a própria armadilha. Hoje em dia é mais comum uma estrutura de ferro, a que se entralha uma rede plástica.

Entre os nomes das armadilhas de estrutura fixa encontramos o covo, a murejona.

Na costa do concelho de Odemira predominam as armadilhas de estrutura rígida, chamadas covos, destinadas à pesca do polvo. Têm vários tamanhos e formas, desde o pequeno formato paralelepipédico até à que se assemelha a uma grande roda ou cilindro. No passado foram comuns as nassas, construídas em madeira, para a pesca de crustáceos.

Arrasto – atividade muito variada e que vai desde as pequenas artes de pesca, as dragas de mão operadas por uma pessoa a pé, passando pelas dragas manobradas a partir de embarcações miúdas de boca aberta, até às grandes redes de arrasto rebocadas por navios no mar alto. Neste conjunto podemos ainda considerar dois subconjuntos: o arrasto pelo fundo, que toca ou anda muito próximo dos solos; e o arrasto de meia água, que atua na coluna de água a alguma distância dos solos, até à superfície.

Usou-se este tipo de aparelhos na apanha de algas somente para Sul da área costeira da Azenha do Mar, em trabalhos feitos a partir de embarcações fundeadas. Nos restantes portos da costa de Odemira, Portinho do Canal / Vila Nova de Milfontes, Lapa de Pombas e Entrada da Barca, não se empregam tais artes.

Redes de Cerco – Processo de pesca que consiste em cercar o cardume e fechá-lo por baixo e pelos lados, sendo depois o pescado recolhido com sacos de rede chamados xalavares.

É uma pesca destinada sobretudo a espécies pelágicas, como a sardinha, a cavala, o biqueirão. Dos quatro portos do concelho só o do Portinho do Canal tem condições para acolher este tipo de embarcações e artes.

Redes de Emalhar – Artes de pesca empregues nos quatro portos do concelho de Odemira (Portinho do Canal em Vila Nova de Milfontes, Lapa de Pombas, Entrada da Barca e Azenha do Mar). São aparelhos de um só pano de rede, em que o tamanho da malha varia conforme as espécies de peixe a que se destinam. Usam-se, por costume, em caçada: vários panos de rede acrescentados uns aos outros, a fim de aumentarem a área de pesca.

Redes de Enredar ou de tresmalho – Artes de pesca empregues nos quatro portos do Concelho de Odemira (Portinho do Canal em Vila Nova de Milfontes, Lapa de Pombas, Entrada da Barca e Azenha do Mar). Trata-se de aparelhos de três panos de rede, o miúdo ao centro e as albitanas nos lados, uma de cada face. Usam-se em caçada, isto é, com vários panos de rede acrescentados uns aos outros, a fim de aumentarem a área de pesca. Pescam no fundo ou muito próximo deste.

Redes de Sacada (que também têm o nome de redes de secada) – Não se usam nos portos do concelho de Odemira.

Trata-se de aparelhos de rede, de tamanho variável. Os mais pequenos podem ser manobrados por uma só pessoa; os de maiores dimensões são operados a partir de duas embarcações, que podem ser barcos de boca aberta da pesca artesanal, ou mesmo navios da pesca industrial.

São redes de forma quadrada, com uma ligeira convexidade, que se suspendem a meia-água e, quando as presas se encontram sobre ela, atraídas por comida ou focos de luzes, são rapidamente puxadas.

A estas doze classes de aparelhos de pesca podemos acrescentar o emprego de pequenos instrumentos ou artifícios que, sendo mais propriamente ferramentas auxiliares, podem ser, com perícia, empregues como Instrumentos de Pesca – sacos de rede, xalavares, camaroeiros.

CONSTRUÇÃO NAVAL

Abas da escotilha – as duas tampas de uma escotilha de gaiuta, que parecem um telhado de duas águas.

Alcatrate ou talabardão – nas embarcações de boca aberta, peça que assenta nos topos dos braços das balizas; nos barcos maiores, conjunto de madeiros colocados de popa à proa sobre os topos das aposturas. Em ambos os casos, o remate do revestimento interno e externo.

Alefriz – entalhe na quilha, na roda de proa e no cadaste, a um e outro bordo. Nele se embebe a primeira fiada de tabuado e os topos dele.

Amura – parte arredondada do navio num e noutro bordo da roda de proa, nas obras mortas do costado.

Amurada – prolongamento do costado do navio acima do convés, ou a face interna do costado de uma embarcação. Palavra relacionada: diz-se que um barco está amurado quando tem as amuras fixas em determinado bordo. O verbo amurar significa fixar a amura de uma vela.

Aposturas – peças que formam os topos superiores de cada baliza, ou os últimos braços de cada baliza; também significam o conjunto dos braços e das hastes (nome que davam às aposturas) que formam cada baliza.

Balizas – peças curvas cujos extremos inferiores se encaixam no alefriz da quilha, a um e outro bordo desta, da proa à popa. Cada uma das peças, situada a um bordo, é uma meia baliza e é formada de caverna, braço e apostura. Têm também a função de ligar o arcaboiço axial ao transversal. Expressão relacionada: na construção naval, a expressão arvorar uma baliza significa içá-la/levantá-la, colocando-a no lugar que ocupará no barco.

Baliza mestra – peça situada na zona de maior secção transversal da embarcação.

Balizas de armar – balizas principais que primeiro se arvoram e que definem a forma geral do costado da embarcação.

Baliza de enchimento – peças que ficam entre as balizas de armar e que preenchem estes intervalos. Na área da popa e da proa, por causa dos delgados da embarcação, ganham a forma de V, tomando o nome de hastes.

Balizas de escovém (também chamadas paus de escovém) – paus colocados ao alto num espaço triangular entre a última baliza revirada de proa, designada pau da percha, e as colunas, assentando os seus pés na baliza do pau da percha. Este nome deriva do facto de ser nestas peças que é aberto o orifício em que se monta o escovém de aço onde corre a amarra que prende a âncora.

Balizas direitas – peças que se situam nas embarcações que possuem as faces de vante e de ré numa posição perpendicular à quilha.

Balizas reviradas – por comparação às balizas direitas, são aquelas cujas faces de vante e de ré fazem um ângulo oblíquo à quilha.

Balizas do pau da percha – últimas balizas de proa, onde assentam os paus de escovém.

Barbados – peças que reforçam exteriormente as falcas à proa e à popa nas embarcações miúdas.

Beque – peça que avança para além da roda de proa e serve de apoio ao gurupés, “mastro” que se estende para fora da proa, numa inclinação em ângulo agudo relativamente ao plano horizontal. É composta de cinco partes: peito, madre, maciço, pau das costas e curva do papa-moscas, em cujo extremo fica a figura de proa.

Boca – secção onde a embarcação, medida de bordo a bordo, é mais larga. Dois outros valores nas medidas elementares de um barco são o comprimento total ou comprimento de fora a fora e o pontal. Expressão relacionada: quando um barco não tem coberta, diz-se que é de boca aberta.

Borda – parte superior do costado de uma embarcação. Expressões relacionadas: bombordo é a borda que se encontra do lado esquerdo da proa; estibordo é a borda que se encontra do direito da proa.

Braços – peças que fazem parte das balizas e que se ligam, no lado inferior, às cavernas e, na parte de cima, às aposturas.

Bussardas (ou buçardas) – peças que têm uma forma curva e que ligam a proa e a popa às duas metades do costado, reforçando a estrutura do barco.

Cadaste – peça disposta ao alto na popa e que aí se liga à quilha, tendo por fim fechar o costado da embarcação. Expressão relacionada: designa-se cadaste do leme quando tem, também, a função de aguentar o leme.

Calado – medida tirada na vertical que dá a distância do ponto mais baixo da quilha à linha de água da embarcação.

Calafate – operário de estaleiro que introduz a estopa nas juntas do tabuado da embarcação, cobrindo-as com breu, para vedar a entrada da água por elas. Neste trabalho, utiliza o ferro de gornes (de um, dois ou três gornes), o ferro estreito, o ferro de meter a estopa na costura, o ferro de cortar, o ferro de limpar o breu, o desencalcador, o puchavante ou juchanante e o maújo.

Carlinga – peça que vai de bombordo a estibordo, ligada à sobrequilha e provida de um encaixe de secção rectangular chamado caixa da carlinga ou pia. Nesse encaixe entra a mecha do mastro real. Expressão relacionada: pôr a carlinga – indica o ato de fazer entrar a mecha do pé do mastro na caixa da carlinga.

Casco – corpo principal de uma embarcação, englobando todo o seu invólucro exterior de proa à popa e da quilha à borda. Nos estaleiros navais tradicionais, quando o carpinteiro começava a conceber o barco, era costume fazer o que se designa por semi-casco: maquete da metade bombordo ou estibordo, talhada em tabuinhas a partir das formas do plano horizontal. Como se tratavam de metades simétricas, sabia-se que as informações contidas na parte esculpida eram aplicáveis à metade complementar, evitando-se assim os riscos de dissimetria. A espessura de cada tabuinha correspondia à cota de afastamento entre os planos horizontais (medida sobre o perfil longitudinal), traçando-se o contorno curvo de cada linha neste plano. Para passar da escala do semi-casco ao tamanho real, traçavam-se a lápis as três perspetivas do plano representadas no semi-casco – transversal, longitudinal e horizontal –, obtendo-se uma imagem correta das formas desta parte, o que permitia planear a quilha e as balizas.

Caverna(s) – peças que, juntamente com os braços, formam as balizas. No lado inferior ligam-se à quilha e nos topos unem-se aos braços. Expressões relacionadas: chama-se caverna mestra àquela que se encontra na altura da casa mestra do navio ou na secção mais larga; chama-se caverna de conta a todas as outras, que ficam para ré ou para vante, da mestra.

Cavername (também chamado esqueleto ou ossada) – conjunto de balizas de uma embarcação.

Chata – embarcações sem quilha ou com falsa-quilha (feita para proteger o fundo). Nestes casos, o arcaboiço axial é constituído por tábuas juntas, sobre acrescentamentos transversais.

Cintado (ou cinta) – grossos pranchões do forro exterior que correm o navio da proa à popa, a cerca de meia altura das balizas.

Clara – abertura ou vazado numa peça. Expressões relacionadas: nos barcos de uma só hélice, a clara do hélice é o espaço que fica entre o cadaste interior, atravessado pelo veio, e o exterior, que suporta o leme.

Comprimento de fora a fora – expressão que define a medida tirada a uma embarcação, desde o ponto mais saliente da proa ao ponto mais saliente da popa. Também se diz Comprimento total. Dois outros valores nas medidas elementares de um barco são o pontal e a boca.

Convés – pavimentos de uma embarcação.

Coral – peça de forma curva assente na quilha à proa e à popa. Expressões relacionadas: chama-se coral da roda quando é uma peça da roda de proa e tem por função reforçar, pelo interior, a ligação desta à quilha; chama-se coral do cadaste quando tem o objetivo de reforçar a ligação do cadaste à quilha.

Costado – parte lateral e exterior do barco. Expressões relacionadas: diz-se que um barco tem costado liso quando as tábuas ou chapas do forro encostam umas às outras pelos bordos (sem se sobreporem); a embarcação tem costado trincado quando o bordo de uma fiada é em parte coberto pelo da fiada contígua; tem o nome de trincado duplo quando os bordos de duas fiadas alternadas ficam cobertos pelas da intermédia, que em parte se lhes sobrepõe. Peça relacionada: a tábua de resbordo é a do fundo que, num e no outro bordo, encaixa no alefriz da quilha.

Dormentes – peças que correm da popa à proa para travarem as balizas e servirem de apoio aos extremos dos vaus. Nas embarcações miúdas existem dois em cada bordo e servem de apoio às extremidades das bancadas.

Enora(s) – aberturas nos pavimentos por onde passam os mastros, que no extremo inferior assentam nas carlingas. Também se chama enora à abertura que se faz na bancada dos barcos pequenos, por onde passa o mastro, que assenta na carlinga.

Escotilha – abertura no pavimento dos barcos de convés que se destina à passagem do pessoal, de cargas e descargas, bem como para arejamento ou passagem de luz. São aberturas elevadas, relativamente ao pavimento, por pranchões, em toda a volta, para evitar a entrada de água.

Escovém(s) – aberturas num e noutro lado da roda da proa, por onde passam as amarras e se alojam as hastes das âncoras.

Falcas ou braçolas – tábuas que se acrescentam ao longo da borda de uma embarcação a fim de elevar a sua altura. Têm também este nome as pranchas colocadas à entrada das câmaras ou camarotes a fim de evitar a entrada de água.

Forro(s) – tabuados que cobrem a ossada e os pavimentos de um barco pelo lado de dentro e de fora: forro do exterior, forro do interior e forro dos pavimentos.

Gio(s) – cada uma das peças de forma curva que, nas embarcações com popas de carro ou popas quadradas, se encontram colocadas na horizontal, entalhadas e cavilhadas no contracadaste, e cujos topos se apoiam na face de ré dos mancos (as duas últimas balizas reviradas).

Grinalda – remate superior do painel da popa.

Leme – peça móvel, de madeira ou de metal, aguentada no cadaste, que se destina a dar ao barco o rumo pretendido. Objetos relacionados: madre – peça que encosta ao cadaste; porta – peça que fica ligada à madre e sobre a qual se exerce a pressão da água quando, para virar a bombordo ou a estibordo, o navegador a desvia da posição média; cachola ou cabeça de leme – peça superior da madre do leme, onde encaixa ou emecha a cana do leme, ou a meia lua que lhe transmite movimentos. Procedimentos: o leme gira para um e outro bordo através de um sistema de ferragens – chamam-se machos do leme as ferragens que possuam o formato de espigões e se ligam à madre deste; designam-se fêmeas as peças que estão fixadas no cadaste e onde enfiam os espigões. Expressões relacionadas: designa-se leme de fortuna ou leme de esparrela aquele que se improvisa em caso de acidente e perca do leme original, com a ajuda de materiais que existem a bordo.

Malha – intervalo entre as faces consecutivas de duas balizas.

Mecha – terminação do pé do mastro, que tem uma secção em formato quadrangular e que entra na caixa da carlinga.

Obras – partes de uma embarcação. Expressões relacionadas: chama-se obras de cima as que estão acima do convés; dá-se o nome de obras mortas à parte do casco situada acima da linha de água; designa-se obras vivas à área do casco que anda emersa.

Pontal – medida tomada na perpendicular e na secção mais larga da embarcação, desde a aresta inferior do alefriz da quilha até à tangente da face superior do vau mestre. Duas medidas relacionadas são o comprimento de fora a fora e a boca.

Popa – parte do navio oposta à proa. Expressões relacionadas: são tipos diversos a popa de carro, popa aberta, popa quadrada, popa redonda. Nas embarcações miúdas e que não são de popa fechada, é a parte plana ligada à parte superior do cadaste, onde ligam os topos de ré das tábuas do costado.

Proa – parte do navio oposta à popa. Expressões relacionadas: dá-se o nome de roda de popa ao conjunto das peças que se seguem à quilha e fecham a ossada da embarcação pela vante.

Quilha – forte viga disposta no sentido do comprimento da embarcação, que fecha a ossada na parte inferior. Expressões relacionadas: chama-se quilha falsa ou sobressano inferior a um pranchão que se liga à face inferior da quilha e a protege em caso de encalhe; dá-se o nome de sobressano superior à parte da quilha que fica para cima das arestas superiores dos alefrizes; tem o nome de contraquilha um pranchão grosso que fica entre a quilha e o sobressano inferior e que reforça a quilha pela face inferior quando esta é formada de talões curtos.

Tábua – peça de madeira. Expressões relacionadas: chama-se tábua de caimento àquela que é usada pelo construtor para colocar, em posição correta, as balizas da embarcação que está a construir; designa-se tábua de canto quebrado a qualquer das tábuas que faz parte da fiada que se segue ao cintado; são tábuas de resbordo ou de sisbordo aquelas que no fundo encaixam no alefriz da quilha; são chamadas tábuas do fundo as que pertencem ao forro exterior da embarcação, entre a quilha e as da primeira fiada do cintado.

EMBARCAÇÕES

Barca de passagem – Embarcação que faz a travessia entre as margens de um curso de água. No rio Odemira, frente a Vila Nova de Milfontes, há embarcações que fazem esta travessia.

Aiola – Embarcação que se caracteriza por ter uma grande largura de boca em comparação com o comprimento, uma popa em painel e por poder ser remada por um ou dois tripulantes. Originária de Sesimbra e da Costa da Arrábida, José Joaquim Raimundo e António Manuel Raimundo, do Porto do Canal, compraram uma aiola a um proprietário no porto de Sines, que media cerca de 3 metros e meio de comprimento e possuía motor de popa. Chamava-se Banda do Rosário, mas tinha a alcunha de Prega Saltos, por ser um barco muito levezinho, muito saltadeiro, por estar sempre aos saltos, em resultado de ser um botezinho muito bojudo e em qualquer mar saltar.

Barca da armação – Embarcação a remos, utilizada nos trabalhos das armações de pesca que armavam a Norte, em Sines, e a Sul, na costa do Algarve distingue-se por ser grande e possante.

Barca do limo – Embarcação armada para a apanha de algas através de mergulho, medindo cerca de quinze a vinte metros de comprimento, com cabine e motor ao centro e logística de apoio a mergulhadores. Distinguia-se pelas cores amarela e acastanhada. Em finais de 2015, uma destas embarcações em estado degradado, denominada Zé Zé, encontrava-se na rampa a montante do Cais de Vila Nova de Milfontes.

Barco – Termo genérico que se aplica tanto a embarcações mais pequenas e movidas a remos, ou à vela e a remos, como a navios de grandes dimensões. José do Forno, ao descrever o naufrágio da embarcação do pai, Francisco do Forno, em 1982, diz que o barco apanhou para ali um mar maior e, ao bater em baixo, terá largado uma tábua ou duas, o que o encheu logo de água e o levou para o fundo. Este mesmo pescador também designa barco a embarcação que mandou fazer em 1984, chamada Vila de Milfontes, a qual tinha dez metros e oitenta e uma cabine. António Gonçalves, de Lapa de Pombas, diz que neste porto, no tempo em que era miúdo, cada pescador tinha o seu barco, a remos, a maioria tripulado por uma só pessoa. É igualmente comum a utilização dos diminutivos barquinho e barquito para significar os de menores dimensões, bem como para falar delas com afeto. António Escaleira diz que houve tempos em que pescavam e apanhavam o limo na costa da Azenha do Mar meia dúzia de barquinhos pequeninos em madeira, acrescentando que quatro pessoas andavam com eles na mão e varavam no laredo. José do Forno designa um barquito pequeno, pequenito, aquele que comprou, de boca aberta e motor de popa, de nome Senhor do Mar, depois de ter vendido um maior, com cabine, o Vila de Milfontes.

Barco moliceiro – Embarcação típica da Ria de Aveiro, com fundo chato e popa muito recurvadas, assim como a proa que apresenta forma em espátula. O formato e as dimensões são ajustadas à rocega, recolha e transporte do moliço: bordas bastante baixas, pequeno calado, mastro com vela de pendão usada quando o vento é favorável. No Cais da Vila Nova de Milfontes, um barco moliceiro, adquirido para fins turísticos, faz percursos no rio entre esta localidade e Odemira.

Batel – Embarcação de boca aberta, de fundo chato, com popa direita, uma cinta por baixo do alcatrate e bancadas móveis.

Batelão – Barcaça de pequeno calado e fundo chato, de ferro ou madeira, para transporte de produtos e pessoas na travessia dos cursos de água.

Bote – Designação genérica de embarcações cujas características variam de porto para porto. António da Silva Flor, da Azenha do Mar, refere-se aos antigos barcos como botes (e também como barquinhos): pescava-se de Abril ou Maio, até Setembro, com os botes, com os barquinhos, e depois os proprietários levavam-nos para a foz do Odeceixe, porque não tinham condições para os manterem aqui. Os pescadores do Cabo Sardão já tinham botes, uns barquinhos maiorzinhos, e iam pescar em lugares mais distantes da costa. Também se faz uso do diminutivo botezinho para significar os de menores dimensões e para falar deles com afeto. António Escaleira, da Azenha do Mar, refere as antigas embarcações locais, umas vezes como botezinhos pequenos, outras como botes. José Joaquim Raimundo emprega este diminutivo para significar o Prega Saltos, a alcunha da embarcação que se chamava Banda do Rosário, quando diz que só pescavam no Verão, com um botezinho de quatro metros, que no Inverno recolhiam no rio. Os pescadores do Porto do Canal, Lapa de Pombas e Entrada da Barca recorrem também a pequenas embarcações, em fibra de vidro, destinadas a uma ou duas pessoas, para fazer a ligação entre os barcos que estão nas amarrações e o cais ou rampa. Por vezes, fixam duas rodas no casco destes barcos a fim de os vararem mais facilmente nas rampas.

Catraia – Embarcação de pesca de boca aberta com a proa mais levantada que a popa, que se move a remos, à vela e a motor fora de bordo.

Catraio – Embarcação de fundo chato e popa de painel, movida por dois remos, muito usada nas praias pelos banheiros nos seus serviços e recreio dos banhistas.

Chalandra – Embarcação auxiliar que participa nas manobras das traineiras ou motoras quando efetuam a pesca do cerco pelágico a espécies como a sardinha, a cavala e o biqueirão. É transportada por estas embarcações na popa, penduradas em turcos. Servem também para o transporte dos tripulantes de terra para bordo e de bordo para terra. Para se referir a este tipo de barco, os pescadores usam também termos como bote e chata.

Chata – Pequena embarcação que não tem quilha, característica que é costume referir como de fundo chato ou de fundo prato. António Escaleira usa esta palavra quando fala no tempo em que trabalhou num barco de pesca ao cerco: a seguir fui chateiro, andei algum tempo na chata, era o barco que ficava com uma ponta da rede. Eram barcos que não tinham motor, só tinham dois remos. José do Forno emprega o diminutivo de chata: no Gil da Perna havia sempre um barquinho mais pequeno que a gente levava. Chama a gente uma chatazinha, como se utiliza agora para levar para terra. Dois metros, dois e meio.

Enviada – Embarcação à vela ou motorizada que recebe no mar a pescaria e a conduz ao porto (lota). José Joaquim Raimundo utiliza esta palavra quando fala do tempo em que andou a trabalhar na embarcação do Chico da Abenta, armador do porto de Sines: Andava às vezes à enviada. A gente fazíamos tudo.

Jangada – Artefacto de flutuação geralmente usado para transporte e deslocação de pessoas e cargas em pequenas distâncias. Lixa Filgueiras (1981: 13; 26) identifica três tipos de jangada ao longo da costa portuguesa: i) as que se constroem com troncos de madeira; ii) as que se armam com casca de sobreiro, de que há dois modelos, o de rolos de cortiça com dispositivo para os fixar, e o de moldura de madeira e enchimento de cortiça; iii) as que são feitas com canas, podendo colocar-se pequenas placas de cortiça para a ajuda à flutuação. Esta última é a jangada de São Torpes, na costa do concelho de Sines, a norte do de Odemira. Na costa de Odemira, no porto de Lapa de Pombas, os pescadores fazem uso de um tipo de jangada de pequenas dimensões, com cerca de um metro e meio de comprimento e um metro de largura, feita com grossas placas de esferovite, reforçada com uma pequena base de madeira e envolta em rede de nylon, que serve de moldura. Usam este dispositivo, por exemplo, José Pequeno e Manuel Inácio Brasileiro. Na costa da Azenha do Mar, as pessoas que apanhavam o limo utilizaram jangadas feitas com uma câmara de ar de pneu, cheia, que assentava numa estrutura de madeira, à qual se fixava um saco de rede. O limo apanhado, com ganchorras manuais ou mesmo à mão, era colocado dentro do saco.

Lancha – Embarcação de boca aberta e motor de popa. Na linguagem dos pescadores, em finais de 2015, o termo referia, na maioria das vezes, os barcos construídos em contraplacado marítimo ou fibra de vidro com estas características. A linguagem, porém, pode ter algumas variações. Por exemplo, Manuel Santos diz que, no Porto do Canal, há ainda um exemplar dos barcos pequeninos, lanchas pequenas, que é o Rouxinol do Mira, hoje matriculada para atividades de recreio. Depois é que começaram a aparecer esses barcos com motor fixo. Sobre o tipo de embarcação que melhor se adapta ao mar desta costa e aos seus portos, José Delgadinho e Júlio Delgadinho dizem que tem de ser uma lancha rápida, do tipo que os estaleiros estão a fazer e os pescadores a usar, acrescentando que já não há botes… estão a queimá-los, para dar a vez a estas lanchas, em fibra ou madeira. José António, construtor naval da Azenha do Mar, diz que a embarcação ideal para estes mares e portos é um barco do tipo lancha voadora, tipo chata… que seja rápida.[/learn_more]