História | Litoral de Odemira

Narrativas lendárias ligadas ao mar

Portugal, pela sua situação geográfica e pelo seu passado histórico da época dos descobrimentos, está intimamente ligado ao imaginário marítimo. É fácil notar a importância real deste tema na cultura nacional cujo perfume é de maresia e cujo sabor é de sal. Os portugueses sentem o mar. O mar traduz a expressão de sentimentos tão dicotómicos como são a serenidade e a raiva; a esperança e a angústia; a felicidade e a tristeza. O mar provoca igualmente o sentimento de medo ao evocar a imensidão, os poderes da natureza, da força cósmica e da glória divina. Os oceanos representam o perigo e a sedução: por um lado as tempestades e os monstros marinhos, por outro lado o sonho de riquezas exóticas, de terras desconhecidas, de liberdade.As representações deste espaço lendário constituem uma tradição e uma memória comum no imaginário colectivo dos portugueses.

A costa de Odemira também nos revela um rol de estórias, mitos e lendas deste imaginário ligado ao mar que, paradoxalmente, são relativamente bem situados no tempo ou no espaço. Exemplos disso, a cidade perdida dos mouros do Sardão, que se afundou no mar, estranhamente na confluência de duas ribeiras; ou o relato da pesca e acolhimento de uma sereia na Azenha há trezentos anos, tempo contado pelo passar das gerações desde que o episódio aconteceu. Ser mítico do imaginário marítimo a sereia é um reflexo do encanto, da sedução e o medo do mar e representa os perigos e riscos da navegação marítima. Existe também uma versão com o peixe-homem – espécie de monstro, metade homem metade peixe – que subia do abismo, agarrando-se à borda dos botes, aterrorizando os pescadores e podendo levar à sua perdição. Ou o conto do tesouro de piratas marroquinos escondido com uma marca rupestre numa furna e depois re-enterrado nos medos da Azenha do Mar, onde foi infrutiferamente procurado por muita gente.

Mapa de Portugal datado de 1560

Existe também a narração do aparecimento de uma moura encantada, no “tanque da moura”, espécie de pequena piscina existente nos Rochos Pretos, à entrada do estuário, na noite de S. João, que interpelava os pescadores que regressavam à faina. Estes, com medo, nunca se aproximavam e remavam vigorosamente entrando no rio.Uma dessas aparições foi assumida por uma família de Milfontes. Bernardino Dimas tinha ido pescar moreia, para a família festejar o S. João, e, no regresso, no local da aparição, uma mulher de longos cabelos, que se penteava com um pente, provavelmente de ouro, chamou-o. Ele ficou à escuta e ouviu-a dizer: “vai buscar o teu bezerro (ou bezerros) e traz-mo(s), que dar-te-ei ouro e serás feliz para sempre”. “Quem és tu?”, indagou ele. “Não interessa. Vai e faz o que te digo, se queres ser feliz”. Pensando nos seus valiosos bezerros e considerando que já era suficientemente feliz, Bernardino Dimas recusou a proposta e remou com força. Então, a moura lançou-lhe a maldição de que ele e a sua família, até à 5ª geração, seria infelizes. Com efeito, daí em diante, tudo começou a correr mal: os animais morriam, as terras não produziam – o que ele atribuiu à maldição da moura. Muitos descendentes, querendo libertar-se do anátema, recusaram o apelido Dimas.

Esta lenda contém muitos elementos comuns neste tipo de narrativas, como a água, a sua ligação a S. João, as mouras encantadas, mostrando os seus tesouros, num característico sincretismo e sobreposição de crenças. A referência aos bezerros remeterá para a importância do culto do touro, para o seu carácter sagrado, com raízes cronológicas na Idade do Ferro, e espaciais no Sudoeste da Península Ibérica. A vertente funerária do culto do touro na Península Ibérica, pelo seu carácter genésico-agrário ou fecundante, liga-se às águas dos rios e das chuvas. Estamos portanto face à reminiscência do culto da água, ligado à agricultura e à criação de gado. O medo associado às aparições das mouras encantadas remetem para as ninfas do mundo grego.

Algo surpreendente é a narração de histórias que podem configurar um novo acervo de literatura oral da zona costeira de Odemira. Duas dessas histórias estão relacionadas com o fim do mundo, o que configura uma relação próxima entre as pessoas, a religiosidade e o medo da morte. A primeira é a da construção da arca de Noé, neste caso uma barca, que Deus mandou construir para salvar somente Noé, serviu, ironicamente, para salvar o Diabo do dilúvio universal, por culpa da sua mulher. O detalhe da barca, e não uma arca, é significativa, dado que o barco é o objecto por excelência da salvação e é símbolo da protecção sobre o mar. Na segunda história, há uma interligação entre o mito do fim do mundo e o do sebastianismo: num navio, um grupo de aventureiros percorre o oceano, chegando a uma ilha, Encantada, onde encontram D. Sebastião, rei que iria acabar com o mundo. A narrativa incorpora, assim aspectos do mito do sebastianismo, e parece similar ao contado num folheto de 1815, onde se explicava que D. Sebastião fugira de Alcácer-Quibir para a Ilha Encoberta ou de São Brandão — ilha e viagem de um mito corrente na fachada atlântica e de fundamento bem mais antigo que a o episódio da perda do rei Sebastião em Alcácer Quibir.

O estudo das mitologias e do folclore reflecte a actividade e o pensamento de uma época e de um povo. Não é absurdo pensar que os mitos e as lendas, outrora divulgados oralmente e depois por escrito, provavam e apoiavam teorias sobre o que nos rodeia: o natural e o cultural. Sob a forma de divertimento, estas narrações além de encantar educam. As histórias acompanham a História.