História | Litoral de Odemira

Naufrágios

A morte no mar é um dos principais temores das gentes do mar e das suas famílias, pois o desaparecimento do corpo está associado, desde tempos longínquos, à perdição eterna. A religiosidade é muito forte nas comunidades piscatórias, onde o perigo de morte é enfrentado em cada ida ao mar, por isso, a impossibilidade de receber a extrema-unção, e de ter o corpo numa sepultura, onde as famílias pudessem rezar pela sua alma, é sentido com grande apreensão pelos elementos destas populações. Além disso, a morte repentina de tripulantes e pescadores deixava as famílias na miséria, além da perda dos bens materiais.

A barra do Mira representava um elemento de perigosidade para os barcos, sobretudo de maiores dimensões, porém, na verdade, raros foram os navios de comércio em dificuldades sérias na barra. Geralmente, eram os pescadores, nos seus pequenos barcos, quem mais sentia dificuldades e eram vítimas de naufrágios. Entre 1903 e 1907, naufragaram uma canoa de pesca, uma chalupa espanhola e um saveiro português, e apenas um barco comercial, o iate Correio de Setúbal, que tinha saído com carga de cepa para Lisboa, mas apanhara nevoeiro e, depois de alguns dias sem conseguir manter o rumo, encalhou na praia das Furnas.

Em 1913, nas proximidades do Sardão, naufragou a escuna italiana Elvo, tendo morrido onze tripulantes e salvado três, um russo, um americano e um mexicano. Os náufragos foram recolhidos nas proximidades da aldeia de S. Teotónio. O Elvo vinha do Mississipi com um carregamento de madeira para Génova e naufragou quando o capitão o tentou desviar de um outro vapor, tendo o vento forte impelido o barco para as rochas.

Durante a I Guerra Mundial, os barcos e submarinos dos dois blocos em confronto cruzavam as águas portuguesas. Episódio conhecido é o naufrágio do barco Gomes Eanes da Graça, em 17 Setembro de 1917, torpeado e afundado do largo de Sines por um submarino alemão [UB-50], quando seguia carregado para Lisboa, sendo permitido à população salvar-se a bote.

Mapa de Portugal datado de 1560

Em Janeiro de 1922, ocorre o naufrágio do Albertina Marques, ao largo do Cabo Espichel devido a uma tempestade. O armador tinha insistido em prosseguir viagem para não atrasar a entrega da carga. O navio tinha carregado trigo e cortiça em Odemira e dirigia-se para Lisboa, tendo enfrentado dificuldades ao deixar Milfontes. Ao largo do Cabo Espichel, com Cascais à Vista, altas vagas varriam o convés, acabando por arrancar a escotilha do “rancho”, mal segura,, o que deu origem ao afundamento por inundação do compartimento. Morreram quatro dos seis tripulantes.

No início do século XX, o barco Andorinha, ao chegar a Odemira, a água existente nas cavernas ultrapassou os peneiros e entrou em contacto com a carga, provocando reacção química de cal viva.

Mais frequente era a chegada ao porto de barcos com avarias várias que aqui tinham de fundear até serem reparados. No entanto, aqui não referimos, por falta de dados, os naufrágios dos pequenos barcos dos pescadores destas costas, que enfrentavam, diariamente, o mar, sobretudo no Verão e que viram por várias vezes as suas vidas em perigo quando as suas embarcações naufragram ou estavam em vias de naufragar. É uma história que fica por fazer, recheada de temor mas também de preserverança e heroicidade.