História | Litoral de Odemira

Piratas e Corsários

Ao longo dos séculos a costa portuguesa foi fustigada pelo corso magrebino, sediado, fundamentalmente mas não exclusivamente, em Argel, cidade incluída no Império Otomano. A pirataria – acto em que um navio propositadamente armado ataca e pilha barcos mercantes e populações ribeirinhas – era considerada uma actividade legítima e eram os reis que outorgavam a carta de corso. O arranque comercial marítimo de todos os países europeus foi antecedido de actos de pirataria organizados pelos reis e pela nobreza, que não desdenhava de cometer estas práticas para obter proveitos, até porque, como implicavam feitos de armas, eram considerados honrosos.

 

A década de 80 do século XVI abriu um tempo difícil para a população da costa portuguesa. O corso berbere aumentou de intensidade durante o século XVI, num contexto de expansão do Império Otomano e de abandono das praças portuguesas no Norte de África. Nesta altura, a costa portuguesa também começou a ser frequentemente atacada por corsários do norte da Europa, sobretudo franceses, holandeses e ingleses, que, inclusive, tinham tripulantes portugueses nas suas embarcações. Ao mesmo tempo, continuavam a escassear os navios armados para patrulharem a costa, uma vez que o reino se deparava com uma grave crise económica e financeira. Em 1583, não havia no porto de Lisboa um único navio disponível para combater o corso. Apesar do recrudescimento do corso, Vila Nova de Milfontes, permanecia sem qualquer meio de defesa, sem uma fortificação e os seus moradores estavam desarmados.

Mapa de Portugal datado de 1560

Ataques a Vila Nova de Milfontes

Num dia de Verão de 1582, uma força constituída por várias galés reais assaltou a vila, que ficou despovoada. Conforme relato de Alexandre Massai, escrito algumas dezenas de anos depois, os moradores foram surpreendidos na igreja, pois era dia santo e estavam na missa. Os atacantes seriam em grande número2 e estavam bem armados, pelo que não tiveram dificuldade em ocupar rapidamente a pequena povoação. Ainda segundo este relato, os corsários capturaram os habitantes da vila e dos arredores que estavam concentrados na igreja e queimaram as casas e a igreja, bem como as culturas de trigo e vinhas. Não é possível confirmar a captura da maioria dos habitantes, mas alguns tê-lo-iam sido e os restantes teriam abandonado a povoação. A vila teria ficado de tal forma despovoada que, no Verão do ano seguinte, o conselheiro Miguel de Moura escreveu a Filipe II a sugerir que se notificassem os moradores de Milfontes a regressarem a suas casas e que se colocassem alguns soldados à sua disposição. A ocasião do ataque (dia Santo) poderá indicar que os corsários sabiam os hábitos da população. Estes deverão ter surgido detrás da pedra da Atalaia, a sul da foz, aos primeiros alvores, velas arriadas, para tornar mais discreta a presença das embarcações. Terão entrado velozmente no porto, desembarcaram e dirigiram-se à povoação.

O comandante do ataque era o famoso corsário Murata Rais, também conhecido por Murad Rais, Murat, Amurat ou Morato Rais. De origem albanesa e cristã, foi levado como escravos aos 12 anos, durante uma razia por um corsário argelino. Em Argel, o dono, o corsário Kara Ali tomou-lhe afeição e introduziu-o no corso marítimo. Ele foi um dos principais representantes do novo rumo da pirataria berbere, que se baseava mais em objectivos económicos do que religiosos. Esta actividade corsária significava uma forma de manter o confronto e “ganhar a vida”. As populações do magrebe, fora do circuito do grande comércio, tinham no corso uma forma de sobrevivência.

Nos anos seguintes, Milfontes continuou sem defesa e a ser atacada por corsários. Em 14 de Julho de 1597, foi atacada por “hereges”, provavelmente ingleses, que roubaram os poucos moradores e profanaram a igreja, cujos retábulos partiram, passeando a imagem de Nossa Senhora pela rua, atada ao pescoço de um burro, antes de a golpearem com punhais. Este ataque não deveria ter como objectivo a obtenção de proveitos económicos, pois a vila era demasiado pobre; tão-pouco tinha interesse militar, pelo que se coloca como hipótese que estes deveriam andar em perseguição de algum navio que se tivesse abrigado no rio, ou por qualquer razão técnica tiveram de arraiar neste local.

Em consequência de mais este ataque, os moradores decidiram pedir ao rei que providenciasse a construção de uma fortificação. Da construção ficou encarregado o engenheiro Alexandre Massai, que então dirigia a obra dos fortes e de um porto, no Pessegueiro. E organizou-se um sistema de vigias na costa, articuladas com uma ronda a cavalo. Os três pontos de vigia, activados no Verão, quando era frequente os ataques de piratas eram: à entrada da barra; no Canal, sobre o pontal da vigia; nos Aivados, no extremo norte do concelho. Os piratas vinham a terra com frequência no Canal e nos Aivados para fazer aguada. As vigias e as rondas eram pagas pelos moradores e não terão tido um carácter regular.

Mas os ataques continuaram. Em 1631, os corsário desembarcaram no Canal e levaram uma família que lá vivia, em número de seis ou sete pessoas. A habitação assaltada localizar-se-ia no sítio do Chão das Casas Velhas, cerca de 900 metros a norte do Canal. As vítimas foram o próprio capitão da fortaleza, Diogo Fernandes, e a sua família. Um dos filhos, António Afonso, depois de resgatado, foi também capitão de Milfontes.

No século XVII, Milfontes não sofreu ataques directos, mas os corsários continuavam a atacar esta costa. Numa carta do príncipe D. Pedro, de 1675, este lamentava-se das dificuldades causadas pelas investidas dos corsários argelinos nas costas portuguesas e das dificuldades financeiras que não permitiam manter navios de vigilância da costa. Ainda neste ano, os habitantes do termo de Odemira queixavam-se ao Mestre de Campo General do Alentejo das dificuldades em que estavam pela contínua hostilidade dos mouros que, entrando pelo rio, os cativavam e roubavam. Também se queixavam de não conseguirem fazer frente aos ataques porque não tinham meios de defesa, por falta de armas.

Perante a queixa, o comandante militar da província, Dinis de Melo e Castro, ordenou ao sargento-mor da comarca de Beja, a que pertencia Odemira, que providenciasse a organização de companhias de ordenanças, fazendo-as armar, que examinasse os desembarcadouros e tomasse providências. Além disso, informou o Conselho de Guerra de que a proibição de posse de armas de fogo, por determinação régia, impedia a população de se defender9. Este relatório também chamava a atenção para o facto de o forte de Milfontes se revelar ineficaz, inclusive, para impedir a entrada dos corsário no rio Mira. Em resposta, por despacho do Conselho Guerra, passou a ser permitido aos moradores, atendendo às circunstâncias, possuir arcabuzes ou espingardas de pederneira de cinco palmos de cano, mas continuava a não ser permitida a posse de espingardas. Em relação à vigilância, os moradores da costa de Odemira até Sines, ofereciam-se para pagar as vigias da costa Quanto às Ordenanças, uns anos depois, existia em Odemira uma companhia de cavalos, de auxiliares, com 50 homens, para guardar a costa. Desta forma, a costa entre o Mira e Odeceixe deveria ficar devidamente vigiada e defendida.

Apesar destes ataques serem os únicos documentados, ainda existem relatos tardios e pouco precisos e consistentes de ataques de piratas a esta costa. Em 1646, referindo-se a tempos muito longínquos, o capitão de Milfontes lembrava que pela barra tinha entrado navios turcos e ingleses, e de outros piratas, que saquearam a vila e a queimaram, juntamente com a igreja. Em 1758, o pároco de Milfontes escrevia que, segundo a tradição, durante o grande ataque de que resultou a destruição da vila, mais de século e meio antes, o prior fora capturado e levado para Argel, pois, enquanto fugia, juntamente com os outros habitantes, voltou atrás para não deixar cair o Santíssimo nas mãos dos Infiéis. O abade de Miragaia, em 1886, escrevia que a vila tinha sido assaltada duas vezes: a primeira no tempo de D. João II, que por isso lhe tinha concedido a carta de couto de homiziados; a segunda, no fim do período filipino, que teria levado D. João IV a construir o forte.

Na realidade, aos poucos, os mares foram-se tornando mais seguros. No século XIX, a hegemonia das potências imperiais europeias acabou por neutralizar completamente as cidades corsárias do Mediterrâneo. Ficaram as histórias de piratas, contadas de geração em geração pelas pessoas das localidades costeiras, muitas vezes associadas a mitos e a lendas e imbuídas de maravilhoso.