Geosítios | Litoral de Odemira

Porto da Entrada da Barca | Zambujeira do Mar

Quer se chegue ao porto de pesca da Zambujeira por terra ou por mar, não se ficará indiferente à beleza natural das suas falésias. Observando com um pouco de atenção será fácil de identificar a existência de rochas com cores diferentes e as transformações que exibem (fig. 1).

Figura 1 – A arriba norte do porto onde são visíveis as diferentes litologias e a deformação.

Figura 1 – A arriba norte do porto onde são visíveis as diferentes litologias e a deformação.

As litologias presentes representam a Formação de Brejeira, caracterizada por xistos argilosos, grauvaques e quartzitos. No seu conjunto estas rochas formam uma sequência que representa as várias fases de deposição de material de diferente granulometria numa bacia sedimentar. Os xistos argilosos de cor negra correspondendo a sedimentos finos, como argilas e siltitos, e os grauvaques acastanhados representando uma granulometria mais grosseira, próxima de material mais arenoso.

Figura 2 – Dobra em sinforma e uma zona de falha (a amarelo a cheio).

Figura 2 – Dobra em sinforma e uma zona de falha (a amarelo a cheio).

Para além da litologia salienta-se nestas arribas a deformação das rochas que condiciona claramente quer o aspeto destas quer a entrada no porto, a poente. Na arriba norte pode observar-se uma dobra em sinforma e uma zona de falha (fig. 1, 2 e 3). O esquema da fig. 4 ilustra aspetos particulares da deformação na zona de charneira da dobra, junto ao plano axial. Para além de se poder identificar as camadas sedimentares dobradas, observa-se também o desenvolvimento de uma clivagem axial/tectónica característica. Outros aspetos da deformação podem ser identificados, tais como a presença de abundantes filonetes dobrados de quartzo e de dobras quadradas (fig. 5 e 6).

 

Figura 3 – Esquema ilustrativo da deformação presente nas rochas da arriba norte.

Figura 3 – Esquema ilustrativo da deformação presente nas rochas da arriba norte.

As rochas podem ao longo do tempo vir a sofrer transformações que lhes modificam a sua estrutura inicial. A deformação sofrida pelas rochas depende de fatores diversos tais como o tipo de forças a que estão sujeitas, o tipo de rocha e o ambiente em que a deformação ocorre. Fatores como a pressão e a temperatura controlam o comportamento da rocha; as rochas podem dobrar se as condições do meio as obrigarem a comportar-se como material dúctil ou fraturar se exibirem comportamento frágil. As forças aplicadas podem apresentar componente compressiva, distensiva ou de cisalhamento, condicionando o tipo de dobra ou falha. Dobras em sinforma apresentam a concavidade para o topo e resultam de forças compressivas. A deformação e, no caso particular as dobras, podem ter dimensões muito variáveis – desde a escala microscópica à quilométrica.

 

Figura 4 – Esquema ilustrativo da deformação presente na região do plano axial da dobra (detalhe de A da fig. 3)

Figura 5 – Aspeto típico de zonas de rochas muito deformadas, com filonetes de quartzo dobrados e fraturas verticais nos quartzitos, preenchidas por quartzo

Figura 6 – Dobras quadradas nos xistos

As falhas são zonas de fratura no material em que há movimentação ao longo do plano da falha (subida ou descida de um bloco em relação ao outro) e como tal são reconhecidas no terreno por regiões em que as rochas estão muito amalgamadas e preenchidas abundantemente por quartzo.

Como fenómenos mais recentes assinalam-se a presença na base e no topo da falésia de blocos de rochas, mais ou menos rolados, resultantes dos fenómenos de erosão, e de fraturas métricas no topo da arriba (fig. 7). As últimas revelam instabilidade na arriba, resultando da ação de ataque do mar. O prolongamento das fraturas para o interior do maciço rochoso levará à queda de blocos e a desmoronamentos.

 

Figura 7 – Fraturas no topo da arriba norte demonstrando a ação da erosão litoral.

Figura 7 – Fraturas no topo da arriba norte demonstrando a ação da erosão litoral.