Arqueologia | Litoral de Odemira

As comunidades mesolíticas e neolíticas da orla costeira do Município de Odemira – O quadro geral de referência

A aproximação às comunidades mesolíticas e neolíticas que entre o 7º/6ºmilénio e o 5º milénio ocuparam a faixa costeira do atual Município de Odemira fez-se a partir dos estudos desenvolvidos por outros investigadores, especialmente a partir da década de 80 do século XX, nomeadamente os pré-historiadores Carlos Tavares da Silva e Joaquina Soares, José Morais Arnaud, Lawrence Guy Strauss e David Lubell, e dos trabalhos implementados, mais recentemente, por Joel Rodrigues e Jorge Vilhena, compendiados por este último numa síntese historiográfica para o enquadramento do futuro Museu de Odemira.

O debate acerca do processo de uma economia predadora, baseada na caça-pesca-recoleção, a uma economia produtora de alimentos, com agricultura e pastorícia, centrou-se nos enfoques positivistas da ciência, assentes em paradigmas histórico-culturais, com interpretações difusionistas-evolucionistas (modelos colonial e autóctone), nos postulados funcionalistas-estruturalistas por influência da Nova Arqueologia e, mais recentemente, mas sem acrescentar nada de novo, no eclecticismo acrítico pós-moderno.

Propõe-se, agora, uma revisão dos dados desde os pressupostos da Arqueologia Social, analisando o processo histórico [Arteaga, 2002] desde o social e o económico e considerando a relação dialéctica entre as sociedades e o meio natural [Ramos et al., 2010]

O modelo explicativo – que deve ser extensível a toda a Costa Sudoeste – não pretende apresentar uma visão contemplativa do passado mas sim científica, baseada na análise das formações económico-sociais, do modo de vida que contém e das manifestações da cultura. Cada formação económico-social contém um modo de produção, que poderá integrar diversos tipos de relações de produção e que poderá desenvolver-se através de diversos modos de vida conforme o meio ambiente, os seus recursos naturais e o acesso aos mesmos. As manifestações culturais expressam a especificidade dos modos de vida que por sua vez expressam a dialética interna do modo de produção. Para o período em estudo, serão consideradas as formações Caçadora-Pescadora-Recolectora [predadora] e Tribal [produtora], com as particularidades dos seus modos de vida, e o facto de que a passagem de uma para a seguinte resulta de um processo de transformações revolucionárias.

A mudança para a sociedade tribal aconteceu quando na sociedade caçadora-pescadora-recolectora as relações de reciprocidade e a organização social não responderam à crise que resultou de não haver capacidade para cobrir as necessidades de manutenção e de reprodução do grupo a partir dos recursos disponíveis, com uma tecnologia predadora de alimentos e um padrão de mobilidade nómada. A resolução da crise requereu o desenvolvimento de sistemas de preservação e de aprovisionamento de alimentos [Bate, 1998:85-86].

A mudança social entre as duas formações económico-sociais implicou uma mudança na propriedade objeto do trabalho, isto é, os grupos exerceram a possessão dos meios naturais de produção (dos territórios que ocuparam): terra, pesqueiros, territórios de caça, locais de recoleção, etc., exercendo o controlo da reprodução biológica dos alimentos, como forma de salvaguarda da força de trabalho investida na produção, evitando o aproveitamento por grupos alheios à comunidade. Associado a essa mudança social, o crescimento demográfico viria garantir a propriedade comunal através de uma nova forma de organização social [Bate, 1998:86].

Que tiveram em comum as comunidades mesolíticas e as comunidades neolíticas deste território? A continuidade na exploração dos recursos (caça, pesca e recoleção) e a existência de estabelecimentos estáveis, quer fossem acampamentos base mesolíticos com mobilidade cíclica para um melhor aproveitamento dos recursos, quer fossem aldeias neolíticas. Em ambos os casos, os pesqueiros, ainda hoje em exploração pelas comunidades locais, constituíram-se em verdadeiros locais de aprovisionamento [Bate, 2004 apud Pérez, 2008], surgindo a domesticação de plantas e animais como atividades complementares mas que não representam em si mesmas uma mudança de formação económico-social. É precisamente essa continuidade temporal-espacial o que dificulta traçar uma fronteira nítida entre o Mesolítico e o Neolítico e que contraria as teorias difusionistas recuperadas por Zilhão [1998: 40] e mais recentemente assumidas por Reis [2013].

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